University of Pittsburgh
Jorge Luis Borges Center at The University of Pittsburgh

Borges Studies Online

Eliana Lorentz Chaves
Desejo masculino de maternidade em "Las ruinas circulares"

  

Introdu ção.

"A literatura é uma liberdade extrema que beira o delírio" [1]

 

O tema desenvolvido neste artigo obteve inspira ção no conto Las Ruínas Circulares, de Jorge Luis Borges, publicado em 1943.[2] O prólogo de apresenta ção do livro apenas anuncia que, neste conto, "tudo é irreal".  Ruínas Circulares centraliza sua complexa temática na descri ção do anseio "sobrenatural"  de  um homem que pretende conceber outro homem atrav és de sonhos. Tomando corpo em forma de texto impresso, esta singular aspira ção adquire realidade, abrindo um interessante espa ço de discussão a partir de uma perspectiva psicanalítica.

O material fantasioso expresso em contos e romances tem sido objeto de interesse permanente para a Psicanálise uma vez que fornece, à semelhan ça dos sonhos, uma via privilegiada de acesso às produ ções inconscientes. Desde 1907, na análise do romance Gradiva, de Jensen e no artigo Escritores Criativos e Devaneios, Freud mostra que o escritor "dirige sua aten ção para o inconsciente de sua própria mente, auscultando suas possíveis manifesta ções, e expressando-as atrav és da arte, em vez de suprimi-las por uma crítica consciente."[3]  Nestes trabalhos, de um período anterior à concep ção de superego, a fun ção crítica é tomada em seus aspectos conscientes, sendo privilegiadas a aceita ção ou rejei ção externas. Tomam relevo as diferentes rea ções à exposi ção de fantasias, sejam estas produtos de pessoas comuns ou de escritores criativos. Valendo-se do prazer est ético que suscita em seu p úblico, a arte literária permite a manifesta ção de desejos e fantasias cujo teor constrangeria o homem comum.

Neste contexto de liberdade de expressão de material passível de censura, tomaremos o "propósito sobrenatural" do personagem de Ruínas Circulares como ponto de partida de nossos desenvolvimentos visando estabelecer algumas articula ções entre este n úcleo temático do conto e determinadas concep ções psicanalíticas.

Dentre as muitas possibilidades de interpreta ção da obra, nos dirigiremos a uma expansão de sentido, entrevista nesta pe ça de Borges, referida, especialmente, ao universo fantasístico subjacente à constitui ção do sujeito sexuado. Atrav és de breves cita ções de Ruínas Circulares nos voltaremos para alguns aspectos constitutivos da feminilidade e da masculinidade dentro do pensamento freudiano. Em nosso entender este conto subverte o imaginário da masculinidade uma vez que seu protagonista enuncia o propósito de sonhar um filho aos moldes de uma concep ção feminina.

As Ruínas Circulares.

Jorge Luis Borges apresenta o personagem de seu conto como um viajante que desembarca num templo circular em ruínas decidido a gerar um homem atrav és de sonhos. Nas palavras do autor: "o propósito que o guiava não era impossível ainda que sobrenatural. Queria sonhar um homem: queria sonhá-lo com integridade minuciosa e impô-lo à realidade."[4]

Para cumprir seu objetivo, chegado ao templo, o viajante adormece e sonha "alunos taciturnos" aos quais "ditava li ções". Depois de alguns dias, insatisfeito com os resultados desta primeira tentativa, o sonhador é acometido  de um longo período de insônia que sinaliza o fracasso daquele projeto. Ao recuperar suas for ças e seu ímpeto, o homem novamente adormece e sonha "um cora ção que bate". O cora ção é "ativo, quente, secreto...na penumbra de um corpo humano ainda sem cara nem sexo.." Ao longo de muitas noites sonhou as art érias e os órgãos principais. Antes de completar um ano "chegou ao esqueleto e às pálpebras". Os "inumeráveis p êlos" se mostraram sua tarefa mais difícil, mas, afinal, "sonhou um homem íntegro, um mancebo". [5]

A partir destas passagens buscaremos explicitar certos sentidos de realidade subjacentes à constru ção do texto, à medida que se mostra em aberto um espa ço de interpreta ção entre o "sobrenatural" e o "possível" do propósito do sonhador. Entendemos que Ruínas Circulares se constrói entre a realidade psíquica - que aponta  para fantasias e desejos inconscientes - e a realidade material. Dito de outra forma, o conto, como cria ção artística, como produto de sublima ção, está submetido ao princípio de realidade; não se trata de uma produ ção inconsciente posto que não é, propriamente, um sonho e, menos ainda, uma articula ção delirante. O material exposto na obra remete, por ém, à forma de realiza ção de desejos entendida pela psicanálise como regida pelo princípio de prazer. Ruínas Circulares apresenta ao leitor uma "realidade" fantasiosa semelhante à que impregna a produ ção de sonhos.

A psicanálise concebe os sonhos como "atos psíquicos possuidores de sentido e inten ção."[6] Este sentido não é, por ém,  imediatamente evidente, exigindo interpreta ção. Para a escuta analítica, sonhos são formas disfar çadas de realiza ção de desejos, sendo que seu aspecto fantástico deriva do funcionamento próprio do sistema inconsciente. As produ ções oníricas se mostram como estranhas, incoerentes ou absurdas ao sofrerem deforma ções decorrentes da censura a que são submetidos os desejos subjacentes aos sonhos. Como produ ção inconsciente, o sonho possibilita a realiza ção alucinatória de desejos impossíveis ou censuráveis na vida desperta. Neste sentido, tanto o sonho como a cria ção literária det êm o poder de corrigir "uma realidade insatisfatória". [7]

 A palavra "sobrenatural", escolhida para qualificar o propósito do sonhador de Borges, permite, ainda, outros desenvolvimentos. O sentido corrente de sobrenatural é "não atribuído à natureza", algo "sobre-humano". O conto é irreal, mas seu objetivo é sobrenatural, ou seja, sua execu ção se sobrepõe à natureza. No mundo real, um homem não pode sonhar outro homem possível de ser imposto à realidade e, al ém disso, sonhar uma concep ção aos moldes femininos seria contrário à natureza. Entendemos que, na realiza ção do anseio de sonhar um filho, este conto põe em evid ência uma contradi ção entre a clara defini ção da identidade sexual do personagem - ele é "um homem", "um varão" - e o m étodo empregado pelo sonhador ao ser bem sucedido em sua missão. é inegável que o relato da realiza ção onírica do "propósito sobrenatural" descreve processos similares à gesta ção feminina.[8]

Partindo destas observa ções, é possível nomear o que move o protagonista de Ruínas Circulares como um 'desejo de maternidade', sendo esta expressão alusiva à realiza ção fantasística de um anseio impossível: o sonho de construir, c élula a c élula, o corpo do filho. Não confundi-la, portanto, com fun ções maternas, cujo exercício encontra-se aberto para seres do sexo masculino. O "sobrenatural" deste propósito contrapõe realidades da natureza, de um lado, e "realidades" do desejo, de outro. A enuncia ção deste 'desejo de maternidade' cont ém, em nosso entender, um espa ço de liberdade no que se refere às diferen ças entre os sexos, um espa ço de insubordina ção frente à biparti ção do humano. Pela via desta interpreta ção, buscaremos subsídios para nossas pondera ções, primeiramente, na obra freudiana.

 

A maternidade como expressão do feminino.

 

Observando as rea ções infantis à percep ção das diferen ças anatômicas entre os sexos, Freud articula no ções centrais da Psicanálise como a fase fálica, a castra ção e a inveja do p ênis. A constitui ção egóica, a orienta ção sexual, as patologias e inibi ções podem ser entendidas como efeitos dos conflitos suscitados pela constata ção das diferen ças anatômicas, assim como dos desejos incestuosos cuja compreensão teórica se organiza atrav és do Complexo de édipo.

Na concep ção de uma fase fálica pela qual passam crian ças de ambos os sexos, no que concerne à feminilidade, é priorizado o sentimento de inveja que se manifesta nas meninas diante do órgão sexual visível dos meninos. Como no ção correspondente à ang ústia de castra ção masculina, a inveja do p ênis é al çada à categoria de principal artefacto conceitual elucidativo da constitui ção sexual feminina, centralizando, tamb ém, a compreensão de muitas características observadas com maior freq ü ência nas mulheres tais como sentimentos de inferioridade, ci úme e ang ústia de perda de amor. [9]

Para as meninas, a passagem da bissexualidade infantil para a feminilidade pressupõe uma articula ção necessária, na fase fálica,  entre a inveja do p ênis, dado primário, e o desejo de ter um filho como substituto do órgão masculino invejado/desejado. A feminilidade bem sucedida está marcada, então, pelo desejo de ter um filho/p ênis do pai.[10] Esta concep ção é mantida at é o "Esbo ço de Psicanálise", último texto freudiano contendo refer ências à feminilidade. [11]

A questão da diferen ça anatômica, que evolui at é a equa ção p ênis/filho, não é, por ém, o único tema mobilizador das investiga ções infantis. Antes de dar prioridade à diferen ça, Freud havia considerado os mist érios envolvendo o nascimento dos beb ês como o fator mais importante no despertar da curiosidade e da sexualidade infantil.[12] Ao organizar a castra ção e o édipo femininos em torno da inveja do p ênis, as teorias sobre a origem dos beb ês são abandonadas no que se refere à compreensão do universo fantasístico das meninas. A possibilidade de que esta temática permane ça estimulando o fantasiar do menino, entretanto, jamais foi descartada.[13]

A observa ção da gesta ção e as fantasias infantis a ela relacionadas não são, contudo, alvo dos mesmos desenvolvimentos conferidos às diferen ças anatômicas entre os sexos. A hipótese de algum sentimento de inveja, por parte dos meninos, calcado no visível das modifica ções corporais das mulheres durante a gravidez, não recebe um tratamento conceitual particularizado. Pode-se dizer que a representa ção do que poderíamos denominar de 'inveja do ventre' não adquire estatuto próprio dentro do pensamento freudiano, permanecendo os conte údos fantasísticos relativos a esta temática subordinados aos desenvolvimentos do complexo de castra ção e à primazia do falo. Carentes de maior reconhecimento e de denomina ção particularizada, as fantasias dos meninos de 'terem filhos como suas mães' e o desejo subjacente a este fantasiar infantil atrelam-se, então, à escolha de objeto homossexual. Um exemplo desta conexão pode ser encontrado na análise do Presidente Schreber.[14]

Na interpreta ção do relato autobiográfico do juiz alemão, o anseio de gerar filhos, e as fantasias que o denunciam, aparecem como coadjuvantes de uma articula ção delirante protagonizada pela homossexualidade e pela emascula ção. Este desejo frustrado emerge, entretanto, como deflagrador da patologia de Schreber.

" Como sabemos, quando uma fantasia de desejo aparece, nossa tarefa é associá-la com alguma frustra ção, alguma priva ção na vida real. Ora, Schreber admite haver sofrido priva ção deste tipo. Seu casamento, que descreve como feliz, sob outros aspectos, não lhe deu filhos; e, em particular não lhe trouxe filho homem que poderia t ê-lo consolado da perda do pai e do irmão e sobre quem poderia ter drenado suas afei ções homossexuais insatisfeitas."[15] 

"O Dr. Schreber pode ter formado a fantasia de que, se fosse mulher, trataria o assunto de ter filhos com mais sucesso; e pode ter assim retornado à atitude feminina em rela ção ao pai que apresentara nos primeiros anos de sua infância."[16]

"..descobrimos no fato de sua falta de filhos um motivo humano para ele ter caído enfermo com uma fantasia feminina de desejo."[17]

 

Nessas passagens, o desejo frustrado de ter filhos é o "motivo humano" da enfermidade de Schreber. No juiz alemão, esta frustra ção associa-se à fantasia de que "se fosse mulher, trataria o assunto de ter filhos com mais sucesso". Não está em discussão, neste caso, a possibilidade de um homem alimentar fantasias de 'ter filhos como uma mulher' sem, contudo, 'desejar sexualmente como uma mulher'. A expressão "fantasia feminina de desejo", no contexto do Caso Schreber, associa este anseio à atitude feminina em rela ção ao pai e ao desejo homoerótico.

Importa assinalar que este 'desejo de ter filhos como uma mulher' se constrói sobre fantasias infantis acerca do nascimento de beb ês as quais não relacionam a concep ção ao coito adulto e, tampouco, a percebem como uma prerrogativa das mulheres. A "teoria" do nascimento cloacal, é bastante explícita neste sentido: "Se estes (os beb ês) nascem pelo ânus, um homem pode parir tão bem quanto uma mulher. Portanto é possível que o menino imagine que tamb ém ele tenha filhos, sem que por isso tenhamos de lhe atribuir inclina ções femininas"[18] Diferentemente do observado em Schreber, as fantasias de 'parir tão bem quanto uma mulher' apresentam-se, aqui, descomprometidas de 'inclina ções femininas'. Assim sendo, é pertinente supor que, submetida ao recalcamento, esta "teoria" infantil permane ça estimulando o fantasiar de homens adultos, independentemente de sua orienta ção sexual.[19]

Desde suas primeiras investiga ções sobre a sexualidade, o pensamento psicanalítico direcionou-se a desvincular o desejo sexual de uma aspira ção à descend ência, sendo uma passagem de "Sobre o Narcisismo" bastante explícita a este respeito: "O indivíduo leva realmente uma exist ência d úplice: uma para servir suas próprias finalidades e a outra como elo numa corrente." Como "veículo mortal de uma substância (possivelmente) imortal",  como um "ap êndice de seu germoplasma" ele põe suas energias à disposi ção (da preserva ção da esp écie) "em troca de uma retribui ção de prazer." [20] A sexualidade humana, infantil ou adulta, busca satisfa ção, enquanto o propósito de ter filhos coloca-se do lado das pulsões de auto-conserva ção, a servi ço de aspira ções egóico-narcísicas. Assim, entendemos que a expressão "fantasia feminina de desejo" desdobra seu sentido tanto no 'anseio de ter filhos como uma mulher', quanto no 'desejo de copular como uma mulher', não necessariamente em associa ção.  Como conseq ü ência desta dissocia ção entre o desejo sexual e o anseio de procriar, o sentido da frustra ção deverá explicitar-se em fun ção da constitui ção psico-sexual do sujeito.

A concep ção sobre a etiologia das neuroses prev ê uma rela ção complementar entre a fixa ção a determinado objeto e a priva ção deste objeto na realidade. O poder patog ênico da frustra ção remete a aspectos constitucionais em complementaridade a aspectos acidentais, sendo que, na análise de Schreber, é destacada a importância constitucional da corrente homossexual. Neste caso, entendemos que a frustra ção deflagra perturba ções psíquicas e sexuais em fun ção de determinadas características constitucionais do juiz que encaminham a realiza ção do desejo de procriar pelas trilhas da homossexualidade e do delírio.

Retomando Ruínas Circulares observamos, por ém, que este conto propicia outros encaminhamentos à questão da frustra ção de não ter filhos, os quais eludem tanto a escolha de objeto homossexual, quanto o adoecimento psíquico.

 

Desejo masculino de maternidade em Ruínas Circulares

 

 Na leitura de Ruínas Circulares, partimos do pressuposto de que este conto pode ser interpretado como calcado num 'desejo de maternidade'. à diferen ça de Schreber, que confessa sua frustra ção maternal de forma delirante, o homem-mãe de Borges enuncia seu anseio "sobrenatural" pela via do sonho e da sublima ção. Seja em forma sintomática ou sublimada, este fantasiar abre espa ço à hipótese de uma universalidade do 'desejo de maternidade' em seres do sexo masculino. Esta concep ção se faz presente na obra de autores como Lemoine-Luccioni que afirma: "As mulheres querem falar; os homens querem parir. Na falta disso, estamos na neurose, ou na psicose."[21] Observa ções clínicas de F. Dolto tamb ém ensejam a universalidade de tal desejo nas refer ências à "dor do menino no dia em que compreende que, ao contrário de sua irmã, jamais poderá ter um beb ê."[22] O processo de identifica ção (especialmente a no ção de identifica ção primária) e as concep ções lacanianas da rela ção dual mãe/filho (onde o desejo da mãe é determinante do desejo da crian ça)  permitem, tamb ém um desenvolvimento desta temática, posto que: "no come ço, há de certo modo um único aparelho psíquico para dois corpos, a mãe e a crian ça. E são as mensagens que a mãe dirige ao filho que o informam e que ao mesmo tempo preparam diferentes níveis de identidade."[23]

Neste enfoque, o fecundo sonhador de Ruínas Circulares, ao dar à luz seu 'desejo de maternidade' toca, então, em um ponto nevrálgico de sustenta ção da distin ção psíquica entre os sexos dentro da teoria freudiana, problematizando a questão da inveja como organizadora da feminilidade. Tomando-se o conceito de castra ção numa acep ção que não corresponde à mutila ção dos órgão sexuais masculinos, seu sentido emerge como desilusão, como destitui ção da onipot ência infantil. A partir dessa experi ência, a crian ça (de ambos os sexos) deverá aceitar "que o universo seja composto de homens e mulheres" e admitir com dor "que os limites do corpo são mais estreitos que os limites do desejo".[24]

 Os aspectos imaginários subjacentes à divisão dos sexos foram levados em considera ção desde os tempos inaugurais da Psicanálise e uma passagem de "Tr ês Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade" merece cita ção: "A teoria popular sobre a pulsão sexual tem seu mais belo equivalente na fábula po ética da divisão do ser humano em duas metades - homem e mulher - que aspiram a unir-se de novo no amor."[25] Este trecho, alusivo ao Banquete de Platão, permite sucessivos desenvolvimentos do tema da bissexualidade constitutiva do humano. A no ção de bissexualidade pressupõe que todo ser humano tem, constitucionalmente, disposi ções sexuais masculinas e femininas detectáveis nos conflitos que o indivíduo experimenta para assumir, ou não, uma orienta ção sexual coerente com a anatomia.

A temática da divisão do ser humano em duas metades não se esgota, entretanto, nos conflitos relativos ao desejo sexual, mas se expande aos aspectos narcísicos da constitui ção egóica. Quando postula um narcisismo primário da crian ça como efeito de uma atribui ção dos pais, Freud recorre a um "indicador digno de confian ça constituído pela supervaloriza ção."[26] Os pais se acham sob a compulsão de atribuir todas as perfei ções ao filho: a doen ça, a morte, a ren úncia ao prazer não o atingirão. Em favor de "sua majestade o beb ê", produto do narcisismo renascido dos pais, as leis da natureza e da sociedade serão ab-rogadas.

Assim como a bissexualidade pressupõe, em termos de investimento objetal, um direcionamento para ambos os sexos, em termos de imagem egóica, seu sentido se expande à completude imaginária, algo anterior à mítica divisão do ser humano em duas metades. Quando fala da dor de seu pequeno paciente ao compreender que não poderá ter beb ês como sua irmã, Dolto sinaliza a inj úria narcisista sofrida frente à limita ção, à incompletude de possuir apenas um corpo, apenas um sexo. A constata ção de que as fantasias sobre a  origem dos beb ês mant êm sua importância para os meninos remete a este desejo irremediavelmente frustrado pela "natureza" que os brindou com um corpo "incompleto", um corpo que não engravida. Da mesma forma como as meninas invejam algo que não t êm, os meninos invejariam algo que não podem, porque tamb ém não t êm.

A metapsicologia psicanalítica nos ensina que os aspectos inconscientes de nosso psiquismo se regulam pelo prazer/desprazer. A forma de organiza ção do sistema inconsciente indica que nele podem subsistir, lado a lado, mo ções pulsionais contraditórias sem que uma suprima a outra, sem que uma se subtraia à outra. "Os processos inconscientes dispensam pouca aten ção à realidade."[27]

Esta concep ção permite a suposi ção de que fantasias de maternidade remanescentes da onipot ência infantil subsistam num ser masculino adulto sem contradi ção com a orienta ção sexual coerente com a anatomia. As contradi ções se colocariam apenas no momento de "passagem" deste desejo, assim como de qualquer outro, a uma forma de organiza ção regida pelo processo secundário. Deste modo, entendemos que os conflitos em rela ção à temática da 'maternidade masculina' come çariam a vigorar a partir do momento em que um anseio dessa ordem impulsionasse sua representa ção no sistema pr é-consciente/consciente. Podemos admitir, contudo, a exist ência de uma fantasia dessa natureza submetida aos mecanismos defensivos do psiquismo, mais especificamente ao recalque.  As fantasias e os desejos infantis não se extinguem pela a ção do recalque, deixando sempre em aberto a possibilidade de um retorno do recalcado pela via de sintomas, sonhos e atos falhos. O neurótico encontra no sintoma o meio preferencial de exposi ção de conflitos enquanto, para o escritor criativo, aparelhado de outras formas de expressão, abrem-se outros caminhos para a exposi ção de desejos insatisfeitos.

No ensaio Escritores Criativos e devaneios, [28] Freud relaciona a cria ção po ética ao brincar infantil. O escritor criativo faz o mesmo que a crian ça que brinca: ele cria um mundo de fantasia sem, com isso, deixar de estabelecer uma separa ção entre este mundo e a realidade. A maioria das pessoas, ao crescer, pára de brincar mas, como é impossível para o ser humano abdicar de um prazer já experimentado, o adulto substitui o brincar pelas fantasias e devaneios. "As for ças motivadoras das fantasias são os desejos insatisfeitos, e toda fantasia é a realiza ção de um desejo, uma corre ção da realidade insatisfatória."[29]

Ao final deste artigo, Freud sinaliza que "a verdadeira satisfa ção que usufruímos de uma obra literária procede de uma libera ção de tensões em nossas mentes" e adianta que "isto nos leva ao limiar de novas e complexas investiga ções.."[30].

Ruínas Circulares, na vertente de interpreta ção privilegiada no presente artigo, veicula o desejo de corrigir a "realidade insatisfatória" das limita ções anatômicas. Este conto ilustra, com rara felicidade, o que Freud postulava, em 1915: " é indispensável deixar claro que os conceitos de 'masculino' e 'feminino', cujo conte údo parece tão inambíguo à opinião corriqueira, figuram entre os mais confusos da ci ência.." [31]

 



Notas:

 

[1] Loyola Brandão, I. Jornal do Brasil, Caderno Id éias, entrevista em 26/02/2000

[2] Borges, J. L. "Las Ruinas Circulares" in Obras Completas, Emec é, Buenos Aires, 1989, p.451-455.
[3] Freud, S. Delírios e Sonhos na Gradiva de Jensen. (1907[1906]) In  Gradiva de Jensen e outros trabalhos. Rio de Janeiro, Imago, 1976. ESB. V.9, p.93
[4] Borges, J. L  . "Las Ruinas Circulares" in Obras Completas, Emec é, Buenos Aires, 1989. p. 451 (tradu ção minha).
[5] Op.cit. p. 453
[6] "Freud, S.  O Interesse Científico da Psicanálise (1913) in.  Totem e tabu .. Rio de Janeiro, Imago, 1974. ESB.vol 13, p.203
[7] Freud, S. Escritores Criativos e Devaneios (1908 [1907]), in. 'Gradiva` de Jensen e Outros Trabalhos,  Rio de Janeiro, Imago, 1976. ESB. V.9, p.152.
[8] Quando nos referimos à descri ção do processo de gera ção de uma nova vida, estamos remetidos a aspectos imaginários e não a detalhamentos biológicos de uma gesta ção. Observando a criatividade presente na extensa obra de Jorge Luis Borges, podemos concluir que a descri ção da gesta ção bem sucedida nos moldes da gesta ção feminina foi intencional, posto que não faltariam recursos ao autor para criar qualquer outra forma de concep ção fantástica.
[9] O tema da inveja do p ênis foi abordado com mais detalhe em meu artigo Mulher e Exclusão: Sentidos da Subjetividade Castrada.  In Cadernos de Psicanálise, SPCRJ, Rio de Janeiro, v.15, n.18, 1999. p. 163-186
[10] Em "Algumas Conseq ü ências Psíquicas da Distin ção Anatômica entre os Sexos" (1925) Freud enuncia a equa ção p ênis/crian ça determinante do desenvolvimento da feminilidade: "Ela abandona seu desejo de um p ênis e coloca em seu lugar o desejo de um filho; com este fim em vista, toma o pai como objeto de amor." (E.S.B. vol. 19, p.318)
[11] Freud, S. Esbo ço de Psicanálise. In Mois és e o Monoteísmo.  Rio de Janeiro, Imago, 1975. ESB. v.23.
[12] Observando a atividade investigatória da crian ça, diz Freud: "O primeiro problema de que ela se ocupa,..., não é a questão da diferen ça sexual, e sim o enigma; de onde v êm os beb ês? (...) Ao contrário, o fato de existirem dois sexos é inicialmente aceito pela crian ça sem nenhuma rebeldia ou hesita ção." Freud, S. Tr ês Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade (1905), in. Um Caso de Histeria..Rio de Janeiro, Imago, 1989. ESB v.7 p.182.
[13] Em uma nota de p é de página do artigo "Algumas Conseq ü ências Psíquicas da Distin ção Anatômica entre os Sexos" (1925) Freud corrige a afirma ção que fizera nos "Tr ês Ensaios" de que o interesse sexual das crian ças era despertado," não pela diferen ça entre os sexos, mas pelo problema de saber de onde provinham os beb ês." Freud aponta que; "pelo menos com as meninas este por certo não é o caso." Em rela ção aos meninos, por ém, "não há d úvida de que isto pode acontecer.." (Op.cit.p.314)
[14] Freud, S. Notas Psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de Paranóia. (1911), in O Caso de Schreber...Rio de Janeiro, Imago, 1969, ESB. V.12.
[15] Op.cit, p.78.
[16] Op.cit.p.79
[17] Op. Cit. P.107.
[18] Freud, S. (1908) Sobre as teorias sexuais das crian ças. In Gradiva de Jensen e outros trabalhos. Rio de Janeiro, Imago, 1976. ESB. V.9, p 222-223.
[19] Parece interessante incluir outro exemplo ilustrativo do 'desejo de maternidade' em homens. Quando se preparava para ser pai pela  quarta vez, o poeta Gonzaguinha compôs os seguintes versos:  "Grávido, porque será que um homem não pode querer estar, estando sempre ávido por entender em si a semente que ele v ê na barriga daquela rapariga que passa em estado interessante. (...) Mãe, como seria ter o filho, saber passo a passo, da gera ção à alegria do parto.." Luis Gonzaga Junior, Rio de Janeiro, Edi ções Musicais Moleque, 1984
[20] Freud, S. (1914)  Sobre o Narcisismo, uma introdu ção. In A História do Movimento Psicanalítico. Rio de Janeiro, Imago, 1974, ESB. V.14, p 94.
[21] Lemoine-Luccioni, E. A Mulher ...Não Toda. Rio de Janeiro, RevinteR. 1995,p.2.
[22] In Mannoni M. Elas Não Sabem o que Dizem. Rio de Janeiro, Zahar, 1999,p.105

[23] J. Sedat. In Kaufmann, J. Dicionário Enciclop édico de Psicanálise. Rio de Janeiro,

Zahar, 1996.  p.257

[24] Nasio, J.D. Os Sete Conceitos Cruciais da Psicanálise. Rio de Janeiro, Zahar, 1991, p.13.
[25] Freud, S. (1905) Tr ês Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. (1905), in. Um Caso de Histeria..Rio de Janeiro, Imago, 1989. ESB. V. 7, p. 128
[26] Freud, S. (1914)  Sobre o Narcisismo, uma introdu ção. In A História do Movimento Psicanalítico. Rio de Janeiro, Imago, 1974, ESB. V.14, p 107.
[27] Freud,S. O Inconsciente (1915) in. A História do Movimento Psicanalítico. Imago, 1974, ESB.v.14, p.214.
[28] Freud, S. Escritores Criativos e Devaneios (1908 [1907]), in. 'Gradiva` de Jensen e Outros Trabalhos,  Rio de Janeiro, Imago, 1976. ESB. V.9, pgs.149-158.
[29] Freud, S. Op.cit. p.152.
[30] Freud, S. Op. Cit. P.158.
[31] Freud, S. (1905) Tr ês Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade. ESB. V. 7, p.207 (nota de 1915)


First published in Cadernos de Psicanálise / Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro. 16:19, 181-196.


 

 

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